
A espiral, cuja formação natural é frequente no reino vegetal (vinha,
volubilis) e animal (caracol, conchas etc.), evoca a evolução de uma
força, de um estado.
Essa figura é encontrada em todas as
culturas, carregada de significações simbólicas: é um tema aberto e
otimista — partindo de uma extremidade dessa espiral, nada mais fácil
do que alcançar a outra extremidade.
Ela manifesta a aparição do
movimento circular saindo do ponto original; mantém e prolonga esse
movimento ao infinito: é o tipo de tinhas sem fim que ligam
incessantemente as duas extremidades do futuro... (A espiral é e
simboliza) emanação, extensão, desenvolvimento, continuidade cíclica mas
em progresso, rotação criacional.
A espiral tem relação com o
simbolismo cósmico da Lua*, o simbolismo erótico da vulva, o simbolismo
aquático da concha*, o simbolismo da fertilidade (voluta dupla, chifres*
etc.); em suma, representa os ritmos repetidos da vida, o caráter
cíclico da evolução, a permanência do ser sob a fugacidade do movimento.
Trata-se,
na verdade, da espiral helicoidal, mas o simbolismo pouco difere da
espiral plana. Esta tem maior ligação com o labirinto*, evolução a
partir do centro, ou involução, volta ao centro. A espiral dupla
simboliza simultaneamente os dois sentidos desse movimento, o nascimento
e a morte, kalpa e pralaya, ou a morte iniciática e o renascimento
transformados em um só ser. Indica a ação, em sentido contrário, da
mesma força em torno de dois pólos, nas duas metades do Ovo do mundo. A
espiral dupla é o traçado da linha mediana do yin-yang*, a que separa as
duas metades, preta e branca, da figura. O ritmo alternativo do
movimento fica, desta forma, expresso com maior precisão, como no antigo
caracter chen, que, através de uma espiral dupla, representa a expansão
alternante do yin e do yang.
A espiral dupla é, ainda, o duplo
enroscamento das serpentes em torno do caduceu*, a dupla hélice em torno
do bastão bramânico, o duplo movimento dos nadi em torno da artéria
central sushumna: polaridade e equilíbrio das duas correntes cósmicas
contrárias. Deste modo, o mesmo símbolo pode se expressar através da
rotação alternativa da espiral nos dois sentidos: é o caso da serpente
Vasuki, puxada alternadamente por deva e pelos asura no mito hindu da
Batida do Mar de Leite; do isqueiro de rosca, que tentaram relacionar
com a dupla espiral céltica e com as funções de Júpiter como senhor do
fogo. Na Ásia, ainda se faz uso de furadeiras com brocas muito
semelhantes. O que é preciso notar aqui é que a produção do fogo não
difere da do amrita. É o resultado da alternância e do equilíbrio de
duas energias de sentido contrário. A espiral dupla se relaciona, ainda,
com certas figurações do dragão*.
Além disso, o dragão se
enrosca em espiras helicóides em volta das colunas dos templos. A
serpente da kundalini também, em torno do svayambhuva-linga, na base da
coluna vertebral, mas então a espiral não é desenvolvida, é embrionária.
E o yin-yang pode ser considerado o traço descritivo, no plano
horizontal, da hélice evolutiva. Essa hélice, de voltas infinitesimais,
simboliza o desenvolvimento e a continuidade dos estados da existência;
também os dos graus de iniciação, como é o caso no uso simbólico da
escada* em espiral.
A espiral é um símbolo de fecundidade,
aquática e lunar. Baseada em todos os ídolos femininos paleolíticos
homologa todos os centros de vida e de fertilidade. De vida, porque
indica o movimento de uma certa unidade de ordem ou, inversamente, a
permanência do ser sob sua mobilidade.
Pode ser encontrada em
todas as culturas. A espiral é um leitmotiv constante... O simbolismo
da concha espiralada é reforçado por especulações matemáticas que fazem
dela o signo do equilíbrio dentro do desequilíbrio, da ordem do ser no
seio da mudança. A espiral, sobretudo a logarítmica, possui essa
propriedade notável de crescer de modo terminal, sem modificar a forma
da figura total e, assim, de manter-se com forma permanente apesar do
crescimento assimétrico. As especulações aritmológicas sobre o Número de
Ouro, número da figura logarítmica espiralada, vêm completar
naturalmente a meditação matemática da semântica da espiral. É por todas
essas razões semânticas e por seus prolongamentos semiológico e
matemático que a forma helicóide da casca do caracol, terrestre ou
marinho, constitui um glifo universal da temporalidade, da permanência
dó ser através das flutuações da mudança.
Entre os índios Pueblo
de Zuni, na grande festa do solstício de inverno — que é também a festa
do Ano-Novo, o primeiro dia — depois de acender-se o fogo do Ano-Novo
sobre um altar, entoam-se cantos espirais e dançam-se danças espirais.
Esse costume poderia dar a chave simbólica da origem de todas as danças
giratórias, das quais a mais famosa é a dos Mevlevi ou
dervixes-giradores turcos: como diz Gilbert Durand, assegurar a
permanência do ser através das flutuações da mudança. De fato, o
solstício de inverno é, simbolicamente, o momento zero da cosmologia
maia, que tem por símbolo a espiral. É o instante crítico em que é
preciso assegurar o recomeço do ciclo anual, sem o qual seria o fim do
mundo. São conhecidos os sacrifícios humanos loucos que, sob o terror
provocado por essa ameaça, os astecas praticavam para dar força e sangue
ao Sol, a fim de que ele retomasse sua trajetória.
A espiral
dupla de movimento inverso (em S) é um símbolo das mudanças lunares e do
trovão, pois a tempestade é muitas vezes associada às mudanças da Lua. É
uma expressão gráfica do simbolismo da fecundidade, associado ao
complexo tempestade-trovão-relâmpago. A esse título, ela pode
representar o zunidor*.
Para inúmeros povos da África negra, a
espiral ou o helicóide simbolizam a dinâmica da vida, o movimento das
almas na criação e na expansão do mundo. O glifo solar dos dogons e dos
bambaras é revelador: é feito de um pote (matriz original) envolto por
uma espiral de cobre vermelho de três voltas (símbolo da masculinidade);
esta representa o verbo original, a primeira palavra do Deus Amma,
i.e., o espírito, sêmen de divindade. Entre os bambaras, o Mestre Faro,
senhor da Palavra, é representado por uma espiral no centro de pontos
cardeais. Eles o materializam com um barrete de verga com oito espiras,
outrora usado pelos reis. De acordo com a espiral usada por Faro, quando
da primeira reorganização do mundo, ele se movimenta de quatro em
quatro séculos para fiscalizar os confins, e depois retorna ao ponto
central, de onde vigia e rege o universo. Da mesma forma, o mecanismo da
procriação seminal do homem e a sua palavra, que penetram a mulher pelo
sexo mas também pela orelha, que é um outro sexo, enroscam-se em
espiral em torno da para fecundar o germe etc.
Mais ao sul, um
simbolismo análogo rege o emprego da espiral no pensamento cosmogônico
dos luluas e dos lubas, tribos bantos do Kassai (Zaire). O movimento das
almas, espíritos, gênios, entre os quatro planos do universo, desenha
uma espiral ou um helicóide. Na glíptica desses povos, uma grande
espiral ladeada de duas pequenas representa o Deus Supremo criando o Sol
e a Lua. Uma só espiral representa a serpente pitón enroscada, imagem
do Criador e do movimento cíclico da vida. Representa também o Céu, e,
ainda, a peregrinação cíclica das almas, encarnadas, desencarnadas e
reencarnadas sucessivamente. Uma espiral com as espiras estriadas de
forma regular significa o movimento da vida do homem, passando
alternadamente pelo bem e o mal. Por analogia, a casca do caracol
terrestre, igualmente espiralada e estriada, entra na composição dos
medicamentos de uso duplo, benéfico e maléfico.
Dan, uma grande
divindade vodu, símbolo da continuidade, geralmente representado no
Daomé sob a forma da serpente que morde a própria cauda, também
assimilado ao arco-íris, é considerado um ser duplo bissexuado e gêmeo
de si próprio, os dois em um, enrolados em espiral em torno da terra,
que preservam na desintegração. A espiral tem claramente a significação
fundamental do movimento original, é a vibração criadora dos dogons, que
está na base de toda criação, e Paul Mercier tem essa frase
surpreendente: por si próprio ele nada faz; mas, sem ele, nada pode ser
feito.
Graficamente, os luluas representam a Terra, a Lua e o Sol
através de uma série de círculos concêntricos ou de espirais, que só se
distinguem em tamanho; o menor desses signos é a Terra, o maior, o
Sol; duas espiras ou círculos concêntricos para a Terra, três para a Lua
e quatro para o Sol.
Com a sua dupla significação de involução e
de evolução, a espiral se une ao simbolismo da roda*, cuja frequência
nas representações figuradas ou nos temas célticos ornamentais
(metalurgia, cerâmica, moedas etc.) ela alcança e ultrapassa. A ciência
moderna quis ver nela um equivalente do fulmen latino e um símbolo
céltico do raio, mas essa explicação é insuficiente, pois a espiral é,
na verdade, um símbolo cósmico. É um tema que encontramos com frequência
gravado pelos celtas nos dólmens ou monumentos megalíticos.
Para os germânicos, uma espiral cerca o olho do cavalo que, atrelado à carruagem do Sol, simboliza a fonte da luz.
A
espiral simboliza, igualmente, a viagem da alma, após a morte, ao longo
dos caminhos desconhecidos, mas que a conduzem, através dos seus
desvios ordenados, à morada central do ser eterno: Creio que em todas as
civilizações primitivas em que a encontramos, desde o Cabo Norte até o
Cabo da Boa Esperança, e em muitas civilizações da América e da Ásia, e
até mesmo da Polinésia, a espiral representa a viagem que a alma do
defunto realiza, após a sua morte, até o seu destino final.
Fonte:
Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain. “Dicionário de Símbolos – Mitos,
sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números”. Rio de
Janeiro: Editora José Olympio, 19ª edição, 2005.